O poder de Jorge Amado nos países luso-africanos

Sensualidade feminina, infidelidade masculina, a vilania do coronel e o defensor dos pobres e injustiçados. Quem conhece a obra de Jorge Amado já sabe o perfil psicológico dos personagens criados pelo baiano que completaria 105 anos em 10 de agosto de 2017.

jorge amado

No dia 10 de agosto de 2017, Jorge Amado completaria 105 anos.

Jorge Amado foi um dos escritores brasileiros com mais livros vendidos e obras traduzidas, ficando atrás apenas de Paulo Coelho neste quesito. O autor viu suas obras se transformarem em novelas, peças, filmes e até mesmo quadrinhos.  Entre os títulos mais famosos e reproduzidos estão “Dona Flor e seus Dois Maridos”, “Gabriela, Cravo e Canela”, “Tieta do Agreste” e “Capitães da Areia”.

Talvez o que nem todos saibam é que, no outro lado do oceano, Jorge também é amado. Ao menos é o que afirma o escritor moçambicano Mia Couto em entrevista. De acordo com ele, não há escritor mais influente e que tenha sido mais lido nos Países africanos lusófonos do que Jorge Amado. “Jorge Amado atravessou o oceano e causou uma espécie de abalo sísmico. O impacto de sua obra foi um verdadeiro divisor de águas”, disse Mia Couto.

O escritor moçambicano explica que, antes do contato do povo luso-africano com a obra de Jorge Amado, a convivência com a escrita portuguesa era baseada no modelo europeu, fazendo com que o povo não se reconhecesse nas histórias. A chegada das obras de Jorge Amado e de seus personagens com fortes traços de personalidade trouxe ao povo luso-africano um sentimento de encantamento e proximidade devido ao modo coloquial dos diálogos e as similaridades culturais entre o povo brasileiro e africano.

“A escrita de Jorge Amado é inclusiva e não faz distinção de raças. A literatura que conhecíamos antes expulsava o negro. Jorge trouxe o sentimento de pertencimento e esse elemento humano, racial e corporal. A africanidade é evidente em suas obras” justificou Mia Couto.

Além das questões já citadas, outro ponto muito importante que explica o sucesso do escritor baiano na África Lusófona foi o momento histórico em que suas obras foram descobertas. Na época, os países luso-africanos viviam sob um regime de ditadura que proibia a leitura dos livros de Jorge Amado, o que trazia um sabor de transgressão naquilo tudo.

“Estávamos criando um país para nós próprios, descobrindo uma voz até então calada. Ele foi um catalisador de uma reação química. Jorge não instigava o gosto pela escrita e pela ficção, mas também nos ensinava a enxergar o mundo numa perspectiva mais ousada”, afirmou o escritor moçambicano.

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