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Três poemas da escritora e poetisa Hilda Hilst

Hilda Hilst conquistou a admiração de grandes escritores da literatura brasileira, como Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles.

Hilda Hilst conquistou a admiração de grandes escritores da literatura brasileira, como Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles.

Hilda Hilst é, sem dúvidas, uma das maiores personalidades da literatura brasileira do século XX. Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, a escritora e poetisa publicou mais de quarenta livros ao longo dos seus 73 anos de vida, e seus textos falavam das ações humanas, da inquietude do ser, sobre a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, quando passou a estudar mais sobre física e filosofia.

Em uma fase de sua vida e carreira, Hilda Hilst passou a fazer experiências de “Transcomunicação Instrumental”, como ela mesmo chamava, deixando gravadores ligados pela chácara Casa do Sol, onde morava, hoje Instituto Hilda Hilst, com o objetivo de gravar vozes de espíritos. A autora foi a grande homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, coroando um processo de reconhecimento da escritora iniciado a partir dos anos 2000.

Suas obras foram traduzidas para alemão, francês, catalão, espanhol, inglês e italiano, Hilda Hilst foi premiada com diversos prêmios nacionais, como o Prêmio APCA de melhor livro do ano de 1977, por Ficções e o Grande Prêmio da Crítica pelo Conjunto da Obra, da Associação Paulista de Críticos de Arte, além de conquistar a admiração de grandes escritores da literatura brasileira, como Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. Entre suas principais obras estão Fluxo Floema, Cartas de um Sedutor, Tu não te moves de Ti, Alcoólicas e Bufólicas.

Para homenagear a autora, hoje o blog da Traduzca apresenta três poemas de Hilda Hilst.

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão,
A mesma ilusão

Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade

Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n’água.

– Hilda Hilst, no livro “Sobre a tua grande face”. São Paulo: Massao Ohno, 1986.

Passeio – 20

De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.

– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Odes maiores ao pai – V

Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro
Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!

Desce da noite um torpor singular, água sob o casco de um velho veleiro
Calcinado. Em mim, o grane limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te
De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua ressonância.
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa
E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma.

– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.



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